Histórias de Parto 1 - Meu nascimento
Quando nascemos, nasce uma mãe, um pai, uma família
Minha mãe conta a história do meu nascimento até hoje. "Fomos buscar a parteira lá na casa da Tutcha, quase que você nasceu no sofá dela". Ai quando veio a parteira, depois que a bolsa rompeu foram 40 minutos. "Aí que a dor veio mesmo, até ali, eu não estava com dor, mas sofri depois que a bolsa rompeu. Doeu muito, mas foi muito rápido depois, depois que a bolsa estoura é que a coisa fica doida". Eu me lembrava do meu parto... não, não. Não quando eu pari... quando eu nasci. Por muito tempo eu me lembrei, de abrir os olhos e olhar em volta, sentir o cheiro da minha mãe e observava a minha avó, ao redor da cama e pensava... "Ok. Deu certo, nasci na família certa." Mexia minhas pernas e braços e pensava. "A transição foi tranquila, estou inteira e consigo me mexer bem, acho que o parto foi tranquilo". Hoje me lembro, da memória de me lembrar... não exatamente da lembrança, como se fosse um sonho, dentro de um sonho. Mas nunca vi, de uma forma banal, o balançar das pernas e braços de um bebê. Sempre me lembrava desse pensamento. "Sim bebê o parto deu certo, você consegue se mexer bem."
Dona Purciliana era uma parteira tradicional, benzedeira que partejou todo mundo aqui onde eu nasci, era muito comum parto em casa naquela época. "Só cobrava doação, só isso, e trazia os óleos dela, fazia as massagens e fazia tudo que precisava, até romper bolsa ela rompia, só não costurava, se precisasse costurar, precisava chamar o médico". Ficava me perguntando o porquê parir com parteira. "Era muito diferente parir com médico e parteira?", perguntei a minha mãe. "Ahh o médico só fica lá parado olhando" risos, "A parteira pega, massageia, traz a força, reza, é muito diferente". Dona Purciliana não era só parteira, mas benzedeira também, minha mãe levava a gente para se benzer com ela, para qualquer mau, para qualquer doença, antes íamos na benzedeira e não por último. Ela era a médica da comunidade, o que ela não conseguiria resolver, aí então iriamos para o médico, e primeiro, era médico homeopata, depois alopata. Nessa ordem, benzedeira, homeopata e alopata e não ao contrário, minha mãe e minha avó acreditavam que o corpo tem perfeição, ele se conserta, se não consegue, aí então a natureza e a fé conseguem, restabelecer seu normal, saudável e quando não conseguem, aí então um médico pode ajudar.
Vi meu primeiro parto em 1987, do começo ao fim, um ano antes nascia meu primo, mas não me deixaram entrar no quarto, mas dessa vez sim, minha irmã nascia pelas mãos de Dona Purciliana, finalmente vi ela em ação, eu tinha 5 anos. Era tarde da noite e acordei com as vozes no andar debaixo, olhei para o teto e estava escuro, olhei em volta nas paredes de tijolo, ouvi os grilos e sapos coaxando, vi que estava sozinha no quarto da minha mãe, caminhei até a escada, estreita, de madeira e vi a movimentação logo embaixo, no quarto embaixo da escada, tive receio, me pareceu proibido, íntimo, todos trabalhavam em silêncio, senti que não era para mim, que não pertencia àquele momento, um gemido e respirações íntimas. Virei e estava voltando para a cama dos meus pais, deitei e fechei os olhos foi então, quando eu senti algo poderoso, ouvi barulhos de explosões, como se milhares de fogos de artifícios explodissem ao mesmo tempo, nesse momento ouvi as vozes de comemoração, um arrepio frio de emoção e espanto me percorreu, desci e lá estava ela, recém parida, pacotinho de bem viver, minha irmã, cheia de vernix e úmida. Olhei ao redor e vi uma bacia de instrumentos da parteira, álcool, algodão, tesoura. Ficou na minha memória aquilo, o cheiro de erva. Encostei na pequena e me apaixonei, não só por ter uma irmã, mas pelo fato de um ser humano virar dois, ou dois virarem três. Depois perguntei para minha mãe, o que eram aquelas explosões todas, se tinha explodido algo e minha mãe me disse, que havia barulho, mas não houveram explosões.
Até hoje eu acho que era, quando o espirito da minha irmã ancorou nesse mundo, que naquele momento eu ouvi o portal do nascimento se abrindo e segundos depois ela nasceu. A mesma sensação que eu sinto a cada nascimento que eu testemunho. Exatamente a mesma sensação. De que algo divino ancora na terra, como se um anjo descesse dos céus e se enroscasse a um corpo. E que esse ser, fagulha de luz, precisa de um portal para descer e esse portal é o portal que a parteira guarda, honra e testemunha, mantendo a egrégora daquele sagrado. E quando ela entendia, o que precisava estimular ou conter, ela facilitava esse momento, guardava, mas não de maneira passiva, mas ativa, através da escuta daquele corpo, daquele ambiente, ela não deixava nenhum homem estar, ela entendia naquele momento que era um lugar de mulheres, meu pai não podia ver os nascimentos. E era assim que ela conduzia. Não é bom nem ruim, mas uma escolha daquela parteira. Para o que ela acredita ser, o guardar daquele momento. E foi assim o primeiro chamado para mim pela parteria ancestral.
Cresci no meio da floresta, tomando banho de cachoeira e comendo fruta do pé, correndo de pé descalço. "A televisão deixa a cara quadrada", minha mãe dizia. "Vão tomar um banho de rio". Depois de um tanto de discordância, corríamos lá pra fora e inventávamos algo pra fazer, muita corrida, muito nadar, muito inventar brincadeiras. Qualquer dor de qualquer coisa, lá vinha minha mãe, com chá e própolis. Tanchagem para gripe, para inflamação, para tudo. Infância com gosto de mato, de fruta fresca roubada do vizinho, de fazer barco de papel, para jogar na enxurrada, gosto de mel, de própolis e de tudo que vinha da abelha. Meus pais trabalhavam como apicultores durante um tempo, então era mel para tudo, quando estava com fome, jogava limão no mel e comia de colher e ficava sonhando com doces que as vezes a gente não tinha, achando que ter doce industrializado, que era riqueza, que era bom, não podia estar mais enganada. Depois de toda fornada de pão de mel que minha mãe fazia com a gente, não só lambia os potes da massa crua, mas lambia a travessa de chocolate derretido que sobrava. Ela deixava a gente comer pão de mel a vontade, sem economia, comi tanto pão de mel, mas tanto, que chegava a enjoar. Levava para a escola, para os amigos escondido. Um dia um menino que achava legal me disse que, se eu levasse 10 pães para ele, ele seria meu amigo para a vida toda. Achei engraçado, ele era engraçado, então levei.... É meu amigo até hoje. Fazem mais de 30 anos isso. E hoje ele também é terapeuta integrativo, se encontrou na acupuntura, acredito que quem experimenta daquilo que é natural e de verdade, nunca mais fica o mesmo, aquilo entra no estilo de vida e a pessoa se transforma, obviamente não estou falando aqui dos pães de mel, mas de crescer na natureza, no campo, no sítio isso muda a gente, o nosso centro, os nossos valores. Uma amiga minha me falou que aprendeu a comer salada com a minha mãe, que depois de conviver conosco durante décadas, aquilo mudou a maneira que ela come, que ela pensa sobre a alimentação, sobre nutrição e que hoje tenta ensinar, aos filhos os mesmos valores.
Crescemos com a minha avó falando coisas ruins do sistema de saúde convencional, com um forte sotaque estrangeiro, "ésta coisa é horrorroza", ela havia perdido um primo para a vacina, então eram as histórias que ouvíamos, aprendi a ter medo do convencional, do biomédico, obviamente muita coisa mudou, mas ela me ensinou a questionar o sistema. Ela era jornalista, com ela aprendi a ler, me deu o Mogli, o menino lobo para ler e a cada 10 páginas, ela me perguntava o que eu havia entendido e se não havia entendido, deveria voltar e ler tudo de novo. Ela lia 2 livros por semana, em 5 línguas diferentes, Inglês, Francês, Português, Holandês, Indonésio. Ela nasceu na Indonésia em 1919, foi presa por publicar artigos antinazistas antes da guerra, enquanto o governo indonésio, ainda achava que os alemães e japoneses eram aliados deles.... Quando a guerra começou o pai dela Achile Webber era dono de um jornal e ainda publicava artigos antinazistas, e todo mês abria o jornal com outro nome, para que continuasse publicando as matérias e assim a prenderam, para conseguir chegar em Achile. Ela foi torturada durante 1 ano inteiro e nunca entregou o próprio pai. Até que a soltaram, sem ela entender o porquê. E logo a prenderam de novo, por distribuir cartas da resistência de dentro do campo de concentração, aos companheiros de fora, e assim ela ficou, até o fim da guerra.
Durante o tempo do campo de concentração elas dançavam, danças modernas com uma professora que também estava lá, Labam era o estilo que elas escolheram, em meio as cercas de arame farpado e a falta de comida, elas dançavam, e com muito tempo de sobra, elas criavam juntas, se apoiavam e usavam o tempo. Minha avó era vegetariana desde os 7 anos, então mesmo lá, ela não comia carne e só comia o pão e dava a carne a um filhote de cachorro que carregava no bolso. Se vocês conhecessem ela saberiam que nada mais "Nini" de se fazer. Depois da guerra elas foram atrás de um empresário para o grupo de dança e assim conheceram meu avô. Logo após o fim da guerra eles abandonaram a Indonésia juntos, a colonização holandesa acabou e meu avô foi expulso por ser holandês, perdeu suas terras, ótimo para o país, ruim para eles. Eles chegaram no sítio deles ainda na indonésia e havia um coronel lá, que os impediram de entrar. "Esse sítio não é de vocês, esse sítio é meu! Não dava para ficar lá, fomos embora para Índia". Após um ano na Índia receberam uma proposta de emprego pelo Conde Matarazzo em Minas Gerais e para o Brasil vieram de navio. E nunca mais saíram daqui. Tiveram 3 filhas, a minha mãe era a mais nova. Quando ela tinha 7 anos o meu avô morreu, e foram morar em Juquitiba, em um sítio recém comprado, com uma casa de pau a pique, na beira de uma represa. Minha avó ia todo dia para São Paulo dar aulas de Inglês e voltava a noite, pegava três ônibus para ir e três para voltar. As 3 meninas ficavam em casa, no sítio, aprendendo a viver, se desenvolver e entrar em contato com a natureza ao seu redor, sem luz elétrica, com água de mina, vacas, cavalos e espaço para se conectarem com a natureza ao seu redor.
Quando eu tinha uns 5 ou 6 anos, colhi minha primeira cenoura, lavei na água do rio e comi, não gostava de cenoura até então, achava sem graça, mas nesse momento algo aconteceu, ela se tornou adocicada e mais crocante, nunca mais parei de comer cenouras. Com 7 anos eu ajudava a minha mãe a colher as verduras da horta e meu pai perguntou a um amigo que tinha uma banca na feira, se eu podia vender as verduras lá. Foi assim que eu trabalhei pela primeira vez, vendi todo meu estoque, antes mesmo do que o dono da banca, e ele me pagou pelo que eu vendi, fez piada dizendo que eu vendia melhor que ele e que se eu continuasse eu iria fali-lo. Eu pensei... "Quem diria não a uma menina de 7 anos?" Nunca mais deixou eu vender verduras na banca dele. Rs.
Eu adorei essa fase em que vivíamos do que colhíamos, mesmo meu pai trabalhando muito e quase não estando perto de nós, até que um dia meu pai estava reclamando da falta de dinheiro, ele não queria viver mais de eventos. Meu pai montava stands para eventos em feiras de exposição, foi então que eu, meu irmão e um amigo, pegamos um pote de mel e fomos para a entrada do sítio e oferecíamos para cada carro que passava... então parou um carro, nos deu dinheiro pelo quilo de mel, e outro carro e outro e quando vimos, a caixa estava vazia. Chegamos com o dinheiro na mão e meu pai entendeu, que poderia ser um meio de ganhar dinheiro, começou a se dedicar só a isso e então tínhamos meu pai por perto até que enfim, ele viajava muito e dormia pouco antes disso e estava sempre muito estressado por trabalho. Quando tivemos meu pai por perto, foi a fase mais feliz que eu tive em família, no fim de semana eu ajudava na banca de mel, na entrada do sítio. E durante a semana eu ajudava eles a centrifugar, embalar e limpar tudo e obviamente, meu trabalho preferido... assar pães de mel. Não íamos ao apiário por razões obvias. rsrsrs. Mas queríamos ajudar em tudo mais. Nesse momento da minha vida entendi o que significava ser útil e a felicidade que isso traz, trabalhar e ajudar em casa. Obviamente brincávamos muito e nenhum trabalho era obrigatório, mas nos deixavam participar, se quiséssemos, quando queríamos. Muitas vezes dormi antes de dar o horário de centrifugar o mel (sempre era feito a noite porque nesse horário as abelhas não sentiam o cheiro e nos deixavam em paz) e quando eu dormia ninguém ia me acordar, sempre fomos vistos como crianças mesmo, se estivéssemos com vontade de ficar e ajudar, ótimo, se quiséssemos dormir e não fazer nada, ótimo também. Fui apenas algumas vezes no apiário, eu era pequena demais para as roupas e não era forte suficiente para segurar as caixas. Então atrapalhava mais que ajudava. Assistia todo o processo muito atentamente. E aprendi muito sobre abelhas, sobre todos os produtos que poderíamos ter de cada medicina que vinha delas.
Éramos em três filhos até os meus doze anos, um irmão, dois anos mais velho, eu e uma irmã caçula, cinco anos mais nova. Ai a minha mãe engravidou de novo. E muita coisa mudou. Meu pai voltou a trabalhar com eventos e ficamos longe novamente. Mas então ganhamos um presente, a gestação da minha mãe. Foi a primeira gestação que eu acompanhei do começo ao fim, meu segundo chamado para a parteria ancestral. Eu já era mais velha e percebi os desejos dela, a barriga crescendo e os primeiros chutes, eu secretamente queria outra irmã, enquanto algumas pessoas falavam em ser um menino, eu queria muito uma irmã. Fui com minha mãe no primeiro e único ultrassom que ela teve. E era uma menina realmente. Algumas semanas depois estava indo para a escola e pedi para minha mãe jurar que se o trabalho de parto começasse, minha avó iria me buscar, para eu acompanhar tudo. Queria ver ela nascer, queria estar lá. Quando deu 17:30 do dia 23 de maio de 1994, a minha avó apareceu na porta da minha sala de aula, eu joguei tudo na mochila e corri para fora. Fomos direto para o hospital da cidade, minha avó brigou, para eu poder entrar, mesmo a minha mãe estando sozinha lá, não me deixaram, saímos chorando de lá. Eu queria muito ver minha irmã nascer, como já havia visto antes. Mas não pude. Quase não dormi aquela noite.
No dia seguinte assim que o pronto socorro abriu, estávamos lá, eu e minha avó, eu queria entrar e conhecer a minha irmã, ainda assim, não deixaram. Então a minha avó virou pra mim e piscou. Ela agachou e olhou nos meus olhos e disse: "Eu distraio e você corre". Então fizemos assim... Ela puxou papo com o segurança e eu entrei na ala da maternidade, enquanto ela distraia ele. Fui entrando sala por sala, tomando cuidado para ninguém me ver, pois não era permitido crianças naquele andar. Até que achei o quarto conjunto de pós-parto e minha mãe. Ela estava numa cama no canto esquerdo e minha irmã estava embrulhada com duas bochechas gigantes e eu perguntei se estava tudo bem. Ela me disse que foi intenso, mas que deu tudo certo, ficamos lá as duas admirando novamente, quando um ser humano vira dois... ou melhor, quando dois viram três. As lágrimas rolaram naquele dia, assim como hoje, de me lembrar do milagre da vida da minha irmã, ainda rolam. O sagrado bem na minha frente. Foi então a primeira vez que ouvi a história de um parto hospitalar. Você deve estar se perguntando.... Porque após 3 partos domiciliares ela decidiu um parto hospitalar? Será que finalmente entendeu que a medicina tem seu lugar?
Na verdade, o que aconteceu foi que a parteira da comunidade não estava mais atendendo. O marido dela havia falecido e ela não se sentia mais apta a atender partos, todo mundo se aposenta, e com ela também foi assim. Em algum momento as parteiras precisam que alguém da comunidade que segure sua bolsa, e naquela situação ninguém se apresentou, ninguém tomou seu lugar de parteira comunitária, embora eu inconscientemente quisesse, desde os meus 4 anos, quando minha tia teve meu primo em casa e ninguém me deixou estar na sala... eu ainda era pequena para entender, que era esse chamado já chegando, devagar. Para mim era normal parir em casa. E muito estranho quando minha mãe me contou do parto que ela teve no hospital.
"Estava demorando”. Ela disse. Já tinha sido umas duas horas depois da bolsa romper e nada ainda. Minha mãe tinha partos muito rápidos, só sentia dor após a bolsa romper, eu nasci 40 minutos depois disso e já haviam duas horas e nada da minha irmã. Doutora Claudia estava pacientemente esperando, foi então que um médico colombiano veio e perguntou se podia ajudar. Doutora Claudia, e minha mãe, então consentiram. Foi então que ele realizou a manobra de Kristeler e minha irmã nasceu. "Que bom que ele estava lá para ajudar". Minha mãe disse. Facilitou e ela nasceu logo em seguida. Para quem não sabe Kristeler é uma passada de braço acima do fundo do útero que força o bebê para baixo, se o bebê está bem posicionado ele desce e nasce, se não tiver bem posicionado, ele então se entorta ainda mais e pode até se machucar, ou então a força excessiva da manobra, pode causar uma laceração e outras coisas. Por isso ela é proibida em alguns países, e contraindicada, em qualquer hipótese. Mas pelo relato da minha mãe, nessa situação ela supostamente, resolveu o problema, minha irmã estava bem posicionada eu penso, ela era grande 4.500g talvez por isso precisaria de um pouco mais de tempo para nascer.
O que eu entendo ao longo dos anos trabalhando com isso, é que, só quem estava lá que pode de verdade julgar ou entender a conduta. O que eu sei é que cientificamente a manobra é contraindicada por trazer mais riscos, do que benefícios. Sorte a nossa que tudo estava bem então. Mas um bom manejo não deve depender de sorte, mas de evidência clara de benefício. Se chegamos ao fim de uma história e dizemos "que sorte estar tudo bem". É porque a conduta foi mal direcionada. Um bom atendimento, não deve só contar com a sorte. Mas com evidência robusta de fatos, que nos dizem que conduta ter. Isso é uma verdade que atravessa gerações. Não importa em que ambiente decidimos parir. Evidência é sempre nossa aliada. E obviamente todos os presentes, talvez não tivessem as informações que temos hoje, e nisso a ciência é sempre bem-vinda, trazer informação de qualidade. Mas era o que tinha, para aquele dia. E então mesmo que inconscientemente, eu comecei a fazer perguntas, na minha própria cabeça... que demorariam décadas para serem respondidas. Porque então alguns bebês sofrem manobras e outros não? Porque as pessoas vão parir sozinhas no hospital? Porque não deixam crianças entrarem nas salas de parto? Porque eu via medo no rosto da minha mãe no momento que eu saia, para ir para a escola naquele dia, enquanto ela sentia a primeira contração? E então aos doze anos, minha mente científica investigativa, estava se formando. E minha impressão de partos hospitalares também. E que na verdade depois disso muito pouco mudou, tanto a minha visão da parteria ancestral, quanto a minha visão de condutas hospitalares. Na dúvida sempre tenho sempre dois aconselhadores, um em cada ombro, do lado direito tenho sempre ficam as evidências cientificas, e do outro o meu instinto e confiança na fisiologia do parto. E meu desafio, é não deixar nenhum dos dois serem mais forte. Sempre ouvir o corpo e sempre entender riscos reais que podem causar problemas ou nos apoiar em nossos instintos. E assim a parteria contemporânea nasceu na minha cabeça e no meu coração, esses primeiros partos moldaram o que eu sou hoje. Mas muitas outras histórias ainda virão.

